Eduardo Moreira. Nome forte. Sempre ecoará nos meus ouvidos principalmente no meu coração. E é com o coração que falo de você, principalmente dos momentos mais tensos de nossas sensibilidades, quando, por vezes divididos, ante emoções e comportamentos, restávamos, entretanto, unidos no respeito que mantínhamos um ao outro, pela atenção que dávamos ao fundamental das coisas, pela atenção que nos unia ao questionarmos em comum a vida e seu sentido. Ganhei muito com você. Com você aprendi muita coisa boa, teu modo franco de ser, tuas muitas informações, obsessivamente trazidas aos nossos diálogos, às vezes até lhes atrapalhando o ritmo e fluidez. Era a tua forma de estar presente. Bem marcante. Inteligência, memória, intuição invejáveis, aliadas a lances de criatividade que ultrapassavam, por vezes as normas e senso comum, declinando para posicionamentos anárquicos ou quase. Era bem você. Era bem você que sabia muito bem onde o galo cantava, pelas tuas leituras de história, política, antropologia, psicologia e psicanálise, de que eras conhecedor, por vida e por formação acadêmica e que usavas, muitas vezes abusavas, na exploração dos assuntos. Com tuas refinadas ironias, contumaz provocador na exploração do conhecimento de ti e de outros, por vezes provocavas mesmo as brasas para te queimar. Coisas próprias de pessoas inteligentes. De temperamento tão rico assim, o que se pode esperar senão o próprio sofrimento em meio às turbulências de um mundo tão cruel e massificado? Tua saúde nunca foi tão boa. Acompanhei-te em parte na tua vida e nos teus últimos dias. Paradoxalmente, leitor bem informado de diversas culinárias e de suas interessantes histórias, ao longo do tempo, tornavas mais gostosos os nossos paladares com as iguarias que nos proporcionavas, especialmente a berinjela que tão bem sabias fazer. O manjericão, a mirra e a romã, bem como outros temperos, sempre me farão lembrar de você. Você era um danado. A experimentação das misturas na culinária expressava a tua combinação com a química da vida. Todo o tempo estavas a experimentar as pessoas, os amigos, a tua própria vida. O prazer do vinho, quando nos servias a primeira taça, transformava em aroma tudo o que se seguia nos bate- papos. O ambiente transformava-se e teu rosto se alegrava alegrando a todos. Como falar de você, Eduardo, sem tocar na música que te tocava sempre, em todas as ocasiões em que nos encontrávamos, nos fazendo envolver com a musica oriental, particularmente, a árabe e a judaica? Por certo, teu namoro com a literatura e com tudo o que dizia respeito a estas culturas, nos levava às alturas nas discussões da religiosidade judaica e judaico-cristã, à procura dos fundamentos, costumes e crenças das nossas próprias, vividas na nossa ocidentalidade tão precariamente cristã, de que padecia de tua parte as críticas. Eram momentos nossos catárticos de que nos servíamos para apurar o sentido de nossas vidas à procura de um galo que, sabíamos em comum, que cantava, e que procurávamos ir em sua direção. Em meio a toda esta tua rebeldia no trato com a religiosidade comum, eras, no entanto, um crente que se perguntava sempre sobre tua fé, tua esperança, teus desejos e sobre o seu endereço certo e pouco mais seguro.
Como me emocionei ao ver aquele chapéu preto de tua estima e identificação que fizeste questão de levar contigo no teu caixão. Ali estavas todo representado, para quem gozava de tua intimidade e sabia do que nem tu mesmo abertamente confessavas, mas que procuravas na tua sensibilidade dizer-te a ti próprio e aos outros com teus gestos.
Vou terminar por aqui, certo de que não disse tudo a teu respeito, dada a riqueza de tantos outros teus traços, por vezes mal interpretados e pouco compreendidos. Um errante lúcido, estímulo à eterna procura e espera. Sempre. Um beijo, Eduardo. Que a misericórdia de Deus te dê lugar na sua morada. De teu amigo Paulo Tasso. J.P. 15-12-2009.
Como me emocionei ao ver aquele chapéu preto de tua estima e identificação que fizeste questão de levar contigo no teu caixão. Ali estavas todo representado, para quem gozava de tua intimidade e sabia do que nem tu mesmo abertamente confessavas, mas que procuravas na tua sensibilidade dizer-te a ti próprio e aos outros com teus gestos.
Vou terminar por aqui, certo de que não disse tudo a teu respeito, dada a riqueza de tantos outros teus traços, por vezes mal interpretados e pouco compreendidos. Um errante lúcido, estímulo à eterna procura e espera. Sempre. Um beijo, Eduardo. Que a misericórdia de Deus te dê lugar na sua morada. De teu amigo Paulo Tasso. J.P. 15-12-2009.


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