sexta-feira, 19 de julho de 2013

Apontamento



APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Diz Que Fui Por Aí (Zé Kéti e H. Rocha)

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão debaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Da lama ao χάος

"... posso sair daqui pra me organizar, posso sair daqui pra me desorganizar..."

Pelos idos da metade dos anos 90 do século XX eu havia decidido só ouvir óperas, pois nada, nada na MPB, além do 5ºteto: Caetano, Gil, Gal, Bethânia e Chico de Holanda, me excitava os ouvidos. Até que em algum mês de 1994, um amigo meu, paulistano, Eugênio, trouxe na bagagem um curioso cd intitulado "Da lama ao caos", de um tal Chico Science, que cantava com uma banda de nome mais estranho ainda, Nação Zumbi = CS&NZ, que tanto significa uma alma que vagueia a horas mortas ou o título do chefe de um quilombo. Era uma equilibrada mistura, entre outras confluências de rock com hap + funk, caboclinhos, candomblé + cangaço, capoeira, cinema + ciranda, côco, ficção científica + embolada, forró, frevo e informática, maracatus, moda, música eletrônica + quadrinhos e, ainda por cima, a teoria do caos. Ao ouvir aquela obra-mista, experimentei uma epifania. Um turbilhão de idéias, imagens, cores, formas, mundos e submundos terrestres e extraterrestres invadiram minha cabeça. Lembro que senti coisa parecida ao escutar ao vivo Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, com a banda Sabor de Veneno, no Theatro Santa Roza, em 1980, graças ao agora, faltoso, Projeto Pixinguinha. Voltando ao CS&NZ, lembro que naquele mesma noite, tomando cerveja na antiga feirinha de Tambaú, pedimos ao Ricardo, dono de um dos quiosques amalucados, que colocasse Da lama no seu aparelho. Prontamente ele nos atendeu e começamos a viajar sem cintos de segurança. Ouvimos, dançamos e sobrevivemos maravilhados até o amanhecer com o disco no repete, acho que umas 50 vezes. Embasbacado, soube através do meu amigo paulistano que tudo aquilo estava sendo produzido bem ali, em Recife, e eu não sabia! Era o movimento Manguebeat que mostrava seus primeiros quelópodes e Science, Du Peixe, DJ Dolores, Fred 04, Otto e Renato L. eram suas principais cabeças cantantes. Daquele dia em diante não perdi um único show do CS&NZ a que pude ir. Assim, fui assistí-los em Recife, Olinda, Natal, Campina Grande, Fortaleza e aqui mesmo (JP), lá no estacionamento do extinto Jangada Clube, com minha inesqucível amiga Rosa. Literalmente, na lama, porque chovia, umas frenéticas 50 pessoas. Francisco de Assis França findou seus dias na terra no dia 3 de fevereiro de 1997, vítima de um acidente de carro na fronteira entre Recife com Olinda (simbólico não?!). Morreu da mesma maneira que Pedro Gil, filho de Gilberto, irmão de Preta, só que sete anos depois. Chorei naquele dia e um caranguejo dentro de mim se escondeu bem fundo e calado na lama de um mangue que existia perto daqui de casa.

Cato alguns guaiás de Da lama ao caos:


"... oi sobe morro, ladeira corrego, beco, favela, a polícia atrás deles e eles no rabo dela, acontece hoje e acontecia no sertão, quando um bando de macaco perseguia Lampião..."

"... banditismo por pura maldade, b
anditismo por necessidade, banditismo por uma questão de classe..."

"... procure antenar boas vibrações, procure antenar boa diversão, sou, sou, sou, sou, sou Mangueboy..."

"... computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro, computadores avançam, artistas pegam carona, cientistas criam o novo, artistas levam a fama..."

Assista a matéria sobre o Manguebeat feita por Tainã Science, filha de Chico:
http://www.youtube.com/watch?v=BUcRKXs3kuA&feature=related

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O melhor motorista do mundo

Eu dirijo desde os 13 anos de idade. Não muito bem, também, desde os 13 anos de idade. Mas quem primeiro me entregou nas mãos essa máquina que nos leva rapidamente a qualquer lugar que tenha estradas foi meu pai. E conto a façanha: Depois de um dia festivo na estância termal do Brejo das Freiras, paramos na cidade de São João do Rio do Peixe, na época Antenor Navarro, para tomarmos "refrescos", afinal estávamos no sertão paraibano. O carro era um fusquinha azul, 1977, que pertencia a minha mãe, e o peguei escondido, para dar uma volta na praça. Meu pai, tão logo descobriu, ao invés de me castigar, exigiu que eu fosse dirigindo até Cajazeiras, minha terra natal. Uma irresponsabilidade! Uma loucura! Para mim, não. Foi a felicidade materializada. Dirigi uns 60kms muito Fitipaldi. Naquele momento vi, com uma clareza estonteante, duas grandes revelações que guiaram a minha vida e a relação que tenho com meu pai até hoje. A primeira: que ele confiava em mim cegamente. A segunda: que ele queria me ver feliz e me amava incondicionalmente. Dona Maria Estelita, minha mãe, como sempre o apoiou e me apoiou silenciosamente, mas acho que até hoje ela se arrepia só em pensar naquela viagem (risos). Uma coisa é certa: meu pai era e ainda é, aos 74 anos, um exímio motorista. Nunca bateu. Nunca foi multado. Diferente de muitos que guiam por aí, respeita os pedestres, os outros motoristas, os semáforos, as placas de sinalização, as distâncias, as aproximações, as velocidades, as freadas, as acelerações, as curvas... Seus carros eram trocados por vaidade, jamais por negligência em sua conservação. Cito alguns: Jeep, Aerowillis, Galaxi, Caminhonetas Ford, Gordini, Fuscas, TL, F10 Chevrolet, Belina, Del-Rey. Em especial, o Opala azul, 1975, que tratava com tanto carinho que até dialogava com ele, pedindo que o ajudasse a fazer uma boa viagem e conduzisse todos com segurança. Fora esse carro e os que citei, ele teve outros automóveis. Finalizo dizendo: Os carros precisam de gente para se locomoverem, mas os do meu pai tinham alma, com certeza!

P.s.: Certo dia, depois de beber algumas, ele me confessou que tinha um sonho frustrado: não ter sido caminhoneiro.

Ouça Roberto Carlos cantando em 1966 em Portugal, O Calhambeque: http://www.youtube.com/watch?v=fHUWzzYqTk8

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Como é bom ter tias

"As tias, as mães e as irmãs tem uma jurisprudência particular com os seus sobrinhos, os seus filhos e os seus irmãos." (Honoré de Balzac)

Faz tempo que eu queria escrever algo sobre as minhas tias. Posso me considerar um “expert” no assunto, pois tenho uma, irmã do meu pai e... oito, irmãs da minha mãe. E tem pra tudo que é gosto -- e desgosto também! Quando pequeno adorava visitar as que moravam na mesma cidade e ir nos feriados e nas férias para a casa das que moravam em Campina Grande, Fortaleza, Natal, Juazeiro do Norte, Recife, São Paulo... Na casa das minhas tias eu me sentia um reizinho. Com certeza, elas queriam rivalizar com a minha mãe e caprichavam nos mimos e atenções, que muitas vezes geravam ciúmes nos meus primos. Uma espécie de batalha doméstico-familiar deliciosa. E, claro, minha mãe fazia o mesmo com os seus sobrinhos. Dos vários mimos, cito alguns, marcantes: o leite com toddy na hora de dormir feito por tia Terezinha. Tia Luzimar, de nome poético = luz e mar, que me deixava passear sozinho nas redondezas do Espinheiro em Recife no início dos anos 80 do século passado (crianças, nem pensem em fazer isso hoje). O suco de caju feito por tia Francinete. Tinha também os almoços, jantares e lanches nas casas dos amigos da tia Cândida. Ainda sinto o gosto na boca dos sequilhos de goma comprados por tia Helena. Os passeios de fusca no fim da tarde com tia Joana. Fazer companhia a tia Maria de Jesus nas compras, que sempre me presenteava com um sorvete kibon. E a coca-cola da mercearia da tia Fátima que tinha gosto de Estados Unidos. Gostava de vê-las montando penteados que desafiavam a lei da gravidade, vestindo e desvestindo saias e mini-saias, fazendo maquiagens coloridas e exibindo calças Lee americana, óculos ray-ban, bolsas e sapatos importados da Europa. Uma festa! Tudo isso entre cenas sensuais: um peito que ainda não estava no sutien, uma coxa furtiva, um decote ainda não fechado mostrando um pouco mais das costas, um pé descalço e até uma calcinha sendo ajustada (uau!). Sem falar nos inebriantes perfumes franceses. Quanta saudade! Não posso esquecer da tia Nely, minha madrinha de batismo. Só a conheço em fotografias, tinha 3 anos quando foi para o céu, mas sei que era muito, muito carinhosa comigo e cuidou do meu umbigo até sarar. Detalhe importante: eu nasci no mesmo dia que ela, 4 de agosto. Esse texto foi feito para todas as minhas tias, mas, especialmente para tia Cândida, porque quase aos 70 anos está interessadíssima no fantástico mundo da internet (tem até msn e e-mail, veja só) e está lendo meu blog pela primeira vez. Beijos e obrigado por ser seu amigo, seu sobrinho, seu "filho".
P.s: Existe o "dia das tias"? Se não, deveria existir.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

"Simplesmente" Maysa

Maysa Figueira Monjardim Matarazzo ou simplesmente Maysa (se é que alguma coisa nela possa ser simples), nasceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de junho de 1936, no mesmo dia e um ano depois do meu pai. Era do signo de gêmeos e um furacão de tristeza e alegria, em estado de choque permanente que transbordava sensibilidade e poesia. Compositora, intérprete e cantora visceral de centenas de músicas, era alcoólatra, tabagista e foi alcunhada de “rainha da fossa". Compôs e cantou suas obras-primas "O meu mundo caiu" e “Ouça”. Cantou também "Solidão" (Antônio Bruno), "Tristeza" (Haroldo Lobo e Niltinho) e "Bloco da solidão" (Jair Amorim e Evaldo Gouveia). Arrasou o quarteirão em 1965, cantando impecável "Bom dia, tristeza" de Adoniran Barbosa e Vinícius de Moraes: “bom dia, tristeza, (...) você veio hoje me ver, já estava ficando até meio triste de estar tanto tempo longe de você. (...), se chegue tristeza, se sente comigo, aqui nesta mesa de bar (...), que é pra eu chorar, chorar de tristeza, tristeza de amar.” Maysa era uma existencialista desde que nasceu, mas só veio se dar conta disso quando passou por Paris no final dos anos 1950. Tentou, sem sucesso, o suicídio várias vezes. Uma delas um dia antes do bem sucedido suicídio do compositor Assis Valente. Durante uma entrevista Maysa afirmou: “Esta revolta íntima contra tudo, esta insatisfação, esta fuga de mim e, ao mesmo tempo, esta eterna procura de meu eu é que me torna infelicíssima.” (sic). Quando criança ouvia minha mãe -- uma melancólica incorrigível -- ouví-la numa coletânea chamada “Para sempre Maysa” de 1977, ano de sua morte, em que ela, além de cantar "Marcada", "Agonia", "Candidata a triste", "Tarde triste", "Rindo de mim" e "Não vou querer", cantava, muito a vontade, em francês (Un jour tu verras), espanhol (Besame mucho), italiano (Malatia) e até em turco (Uska dara). As suas músicas e a sua voz me marcaram profundamente. Só agora, 30 anos depois, entendi claramente após ler a sua biografia escrita por Lira Neto (M. - Só numa multidão de amores) e ver a minissérie global (M. - Quando fala o coração), escrita por Manoel Carlos e dirigida por Jayme Monjardim, seu único filho, porque ela decantava tanto a tristeza. Sobre Maysa pode se dizer: ouça todas as suas músicas, leia tudo sobre ela e assista o seriado, você não irá se arrepender, irá se surpreender!

Maysa aos doze anos escreveu esses versos após uma briga com os seus pais e que se tornou música algum tempo depois:

Adeus palavra tão corriqueira
Que diz-se a semana inteira
A alguém que se conhece
Adeus logo mais eu telefono
Eu agora estou com sono
Vou dormir, pois amanhece
Adeus uma amiga diz à outra
Vou trocar a minha roupa
Logo mais eu vou voltar
Mas quandoEste adeus tem outro gosto
Que só nos causa desgosto
Este adeus você não dá.


Confira a discografia da diva: http://www.sombras.com.br/maysa/maysa.htm#discografia

Ouça Maysa cantando "Ne me quitte pas" visivelmente abalada:
http://br.youtube.com/watch?v=Jq-lLGCHS6E

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ho, ho, ho, ho...

Desde que me entendo por gente não gosto de Papai Noel. Seguindo ele, não gosto do gorro e da túnica vermelha, das renas, do trenó, do saco de presentes, da chaminé, dos pinheiros recobertos de neve e das luzinhas piscando. Enfim, toda a parafernália que substitui Jesus Cristo no Natal, o verdadeiro aniversariante. Imagine a cena: uma criancinha nascida na última fronteira da Paraíba com o Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte ter que conviver com esses signos totalmente estranhos e em pleno verão. Um suplício. E mais: fazíamos “árvores de natal” com galhos de uma planta chamada mufumbo que só cresce na caatinga sertaneja. Enroladas em algodão para imitar neve, eram enfeitadas com brilhantes bolas de vidro vermelhas, amarelas e azuis. Eu não aceitava aquilo de jeito nenhum, ainda mais sob um calor de 40 graus (à sombra!). O que falar dos cartões desejando “merry christmas” que eram ilustrados com um boneco de neve com nariz de cenoura, um cachecol e um sorriso idiota? Ao menos eu conseguia identificar a cenoura... A neve eu achava que era alfenin. Embora a lenda de Noel tenha sido inspirada em São Nicolau, atualmente muito poucos conhecem sua história. Ele viveu em Lycia (Anatólia) onde hoje é a Turquia. Nasceu em 350 d.C. e se tornou bispo na Palestina. É o patrono das crianças e dos marinheiros. A transformação de São Nicolau em Papai Noel começou com os protestantes alemães que o associaram com as festividades do Natal e as costumeiras trocas de presentes. O dia 6 de dezembro é que é dedicado a ele. O primeiro desenho retratando a figura de Papai Noel foi feito pelo cartunista norte-americano Thomas Nast e publicado no semanário Harper's Weekly em 1866. A coca-cola tomou conta depois. Então, exorto a todos que digam as criancinhas que Papai Noel existe, mas lá na Europa, quiça nos Estados Unidos. Seria bom que elas soubessem que os presentes são dados em lembrança aos presentes dados ao menino Jesus pelos Reis Magos Baltasar, Melchior e Gaspar: Ouro dado aos reis, incenso aos sacerdotes e mirra aos profetas. Que tal recuperar a imagem do nascimento do Menino Deus que teria sido mais ou menos assim segundo a tradição: "Na noite de 25 de Dezembro(?), uma mulher grávida e virgem se dirigia para Belém montada em um jumento, à beira de dar à luz o seu bebê. Embora fosse uma emergência, todas as hospedarias lhes negaram abrigo porque estavam sem dinheiro. Assim, ela teve seu filho em um estábulo. Em seguida, os anjos cantam aos pastores e aos Reis Magos. Depois todos se juntam em louvor silencioso ao recém-nascido." Não lhe parece mais familiar? Mais honesto? Mais simples? Bom Natal!

Presenteio vocês com Roberto Carlos cantando Jesus Cristo:
http://br.youtube.com/watch?v=LBt-t0RzwFM&feature=related

P.s. 1: A gravura acima é a original de Thomas Nast publicada na Harpe´s Weekly. Detalhe: O bom velhinho fuma viu. O que? não me pergunte!

P.s 2: Não foi a toa que o mítico Caetano Veloso em 25 de dezembro de 1968 cantou “Noite Feliz” com um revólver na mão, no programa “Divinos e Maravilhosos”, prestes a ser cancelado pela TV Tupi de São Paulo.

Em tempo: Relembro a canção "Boas Festas" composta por Assis Valente (1911-1958), lançada por Carlos Galhardo em 1933 e regravada em 1941 e 1956:

(...)
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então, felicidade
É brinquedo que não tem

Ouça Moraes Moreira cantando "Boas Festas":
http://br.youtube.com/watch?v=p9OH3Jou5oI

Saiba mais sobre Valente, que era protético, músico, criador do estilo "marchinhas juninas e natalinas", desenhista, negro, gay, tinha duas tatuagens com o nome da filha Nara Nadyle Valente Ricardo e matou-se tomando guaraná com formicida:
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/assis-valente.asp

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um mundo caiu!

Macacos me mordam, estarei sonhando? Um negro residirá na Casa Branca por, ao menos, quatro anos? Que lição os nossos irmãozinhos do norte estão dando ao mundo! Que capacidade de revirar túmulos, abrir gavetas, limpar o mofo e pintar a casa... de preto é claro! Barak é 44º Presidente eleito dos E.U.A. Acontecimento dessa envergadura só contabilizo cinco na minha humilíssima vida: a inacreditável queda do Papa João Paulo II (1981), a inevitável queda do Muro de Berlim (1989), a irreversível queda de Fernando Collor (1992), a inopinada queda das Torres do World Trade Center (2001) e a hilária e simbólica queda do Ditador Cubano Fidel Castro (2004). Ainda não foi dessa vez que o país da Guerra da Secessão e da Ku Klux Klan vai ter uma mulher no comando, mas reconheço que ter como presidente um protestante afro-americano, nascido no Hawaí, de pai queniano e batisado com nomes hebraicos e mulçumano é uma grande mudança. No dia 20 de janeiro de 2009, ouviremos Barack Hussein Obama II recitar: "Juro solenemente que cumprirei as funções de presidente dos Estados Unidos e que, na medida do possível, protegerei e defenderei a Constituição". Atente bem que a defesa será "na medida do possível" (art. 2, seção 1, da Constituição estadunidense). E o que as quedas citadas tem em comum com a vitória do black power? Respondo: A queda de uma parcela do reino dos dogmas, do preconceito, da corrupção, da arrogância, da intolerância, da intransigência, do imperialismo, do ódio e da segregação. Viva Martin Luther King. Viva Nelson Mandela. Os Panteras Negras. Malcom X. Mumia Abu-Jamal, Angela Yvonne Davis e tantos outros. "Black is beautiful! God saves the democracy. Yes, we can!" Será?

Reveja as quedas que cito no texto:

do Papa:
http://www.youtube.com/watch?v=x_bHJkOsiqo
de Collor:
http://www.youtube.com/watch?v=wAcblPBSv4g&feature=related
do Muro:
http://www.youtube.com/watch?v=hNh_4SoTYhs&feature=related
das Torres:
http://www.youtube.com/watch?v=2isNtZEGcTg
do
Ditador: http://www.youtube.com/watch?v=hE7HeOEEsbs

Trilha sonora: Maysa Matarazzo cantando, abusadíssima, "Meu mundo caiu" no Japão em 1959:
http://www.youtube.com/watch?v=BgkEb_EHaP0

Em tempo: Obama nasceu no dia 04 de agosto, no mesmo dia que eu, portanto, ele é leonino.


Saiba mais sobre ele no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Barack_Obama#Inf.C3.A2ncia.2C_forma.C3.A7.C3.A3o_e_in.C3.ADcio_da_carreira

Entenda o processo eleitoral americano: http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u359702.shtml

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Enquanto isso no Paraíso...



P.S.: a ilustração é Jan Mabuse, Século XVI (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jan_mabuse) e mexida por mim através do paint.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Passagem de volta

Passagem de ida moço. Estava no ônibus. Só. Paisagens passavam. Da revista li até as propagandas. Fotografei pôr-do-sol. Uma mosca. Mandei torpedo. Pam! Veja, edição 2081. Revistas tem outras funções. Tomei água. Li rostos. Reli revista. Que medo da grande depressão. Bolsa despencou. O tamanho do estrago? Ainda bem que era só uma mochila. Pára que eu quero descer. Claro. Eu escolho a tecnologia. Gol. Demorou, mas madame entregou. Você sabia que Nicolau II, o último Czar da Rússia, é santo? E que o pior emprego do mundo é ser príncipe herdeiro da Inglaterra? Que hoje em dia nem princesa pode se dar ao luxo de ficar sem diploma? O que me interessa a vida sexual das heroínas? Que o Petit Trianon era a casinha pequenina de uma rainha francesa e que Paul Newman era um deus de olhos azuis? A Constituição Brasileira faz 20 anos. O filho que não tive, também. Ouvi todas as músicas do Ipod. Rock n´roll, techno e bossa nova. Me lembrei que eu dancei na festa do Escritório. Ei mr. dijei Aragon: choveu, sabia? Ufa... Cheguei. Que saudade... Quero voltar. Passagem de volta moço.

Trilha sonora: Desert Sex (Night Road Trip) in Lost Highway (1997):
http://www.youtube.com/watch?v=Laf8bhSeGNY&feature=related

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os Quadrados

Eu definitivamente sou um animal urbano e não sofro por isso. Pelo contrário, acho maaara!. Recentemente tive um contato imediato com um quadrado-cidade muito menor do que a que nasci e olhando para um céu infinitamente bonito, agradeci morar onde moro. Fico no meu quadrado-lar sabendo que a poucos metros existem muitas lojas, transeuntes, asfalto. Tem também cheiro de óleo diesel, serviços 24 horas, restaurantes e aviões, ônibus e embarcações para qualquer lugar do mundo. Reverencio Chico Science quando poeticamente diz na música que "a cidade se apresenta centro das ambições, para mendigos ou ricos e outras armações, coletivos, automóveis, motos e metrôs, trabalhadores, patrões, policiais, camelôs." Enfim, tudo que uma cidade muito habitada bem ou mal produz. Paradoxalmente, também gosto da forma como as pessoas de um quadrado-cidade-pequeno se tratam quando são amigas (quando são amigas!). Gosto também das portas e almas abertas. Dos animais nas ruas. Das comadres. Dos mexericos. Dos armarinhos. Dos parentescos. Das comidas caseiras. Das conversas das lavadeiras. Do prosaico. Do pitoresco. Dos animados velórios em casa. Dos olhares transversos. Das bodegas em que se bebe & se come fiado. Gosto, mas por um dia e meio, no máximo. Vivenciando tudo isso, ficou impossível não lembrar do quadrado-cidade retratado no filme Dogville (Dogville, 2003) do cineasta dinamarquês Lars Von Trier (Dogma 95) que trata sobre a vida em comunidade e a tensão que se estabelece entre a escolha individual e a norma coletiva. Na segunda parte do filme os residentes se revelam através de "pecados" da natureza humana encontradas em qualquer quadrado-lugar do mundo: a VAIDADE (Chloe Sevigny), o ORGULHO (Ben Gazarra), a IRA (Patrícia Clarkson), a LUXÚRIA (Jean-Marc Barr), a AVAREZA (Lauren Bacall) e a INVEJA (Stellan Skarsgard). El resto es vivir la vida en la gran ciudad.

Finalizo com a clip poema de Augusto de Campos, Cidadecitycité originalmente publicado no livro Viva Vaia em 1963: http://www2.uol.com.br/augustodecampos/cidadecitycite.htm.

Sobre esse fantástico e sintético poema, Amador Ribeiro Neto já disse tudo. Leia:
http://barrocidade.zip.net/arch2008-01-27_2008-02-02.html

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O bate-cabelo ou a arte de fazer os cabelos pegarem fogo!

Assistir um show de Drag Queen (não confundir com travesti, nem com transformista) é ter uma experiência ímpar. É impressionante ver um homem se transformar em boneca, com uma peruca imensa, geralmente loura, pregada na cabeça não sei como e dá 200 voltas por segundo e a danada não sair voando pelos ares. Isso na língua aurélia significa bate-cabelo. E para um bate-cabelo que se preza, a Drag não usa as madeixas de nascença e nem tampouco a peruca pode ser de cabelo de verdade. Tem que ser sintética mesmo. Sei que existem algumas feitas de rabo de cavalo ou de jumento. A música que acompanha a evolução tem que ter o bit muito acelerado e os saltos dos sapatos altíssimos. Ver isso é uma revelação, dá pra ficar tonto, alucinado. Todos aqueles vôos, piruetas e rodopios em Beijing foram parar na chinela japonesa (e por falar nisso, cadê a mídia acerca dos Jogos Paraolímpicos???). Disseram-me que elas praticam durante dias pra que os pescocinhos em que as perucas se apóiam não descolem e fiquem tetraplégicas. Aliás, se isso acontecer, acho que elas não vão tá nemmm aeeee!. Afinal, o que vale é o segundo de glória, os aplausos, os suspiros, as vaias, o reconhecimento público, os agradecimentos, e, claro, a inveja que causam nas outras e nas aspirantes. Se mentira ou não, me contaram que já existe até personal bate-cabelo (profissional especializado em treinar o tal rodopio peruqueiro). Mas o melhor mesmo é quando o show do palco acaba e elas vêm pra pista fazer a batalha-de-bate-cabelo. É impressionante. Dá uma sensação ótica-ilusória, com ajuda das luzes piscando, de que os cabelos estão pegando fogo. E quanto mais fogo, melhor. Parecem umas pombas-gira cibernéticas. Se chegar perto dá para sentir o quanto são perfumadas. Se tiver a sorte de alguma se virar e dançar com você, pode se sentir abençoado, afinal, são santas contemporâneas. As que fazem a literal transformação. Que vivam as Yohannas, Labelles, Veruskkas, Striperellas, Tammys, Pâmmelas, Gasparellis, Sthepannes, Bagaggeryers, Jéssicas, Lattoyas e tantas outras, anônimas ou não, batizadas com nomes exóticos, lindos, escrito com letras duplicadas (imprescindível) e difíceis de pronunciar. Pra quem nunca viu e quer ter uma idéia, clique no endereço aeeee: http://www.youtube.com/watch?v=CoKirR3GRBA&feature=related. p.s.: Todo mundo deveria ver ao menos um espetáculo desses, a vida com certeza ficaria mais divertida. E segundo elas mesmo dizem: é um trabalho SÉRIO! kkkkkkkk!

O que estou lendo: Em águas profundas de David Lynch. Uma breve autobiografia que me foi carinhosamente presenteada por meu amigo Joca. Bom demais de ler.


O que vi: O sonho de Cassandra (2008). Um patético filme de Woddy Allen com o escocês Allen Ewan McGregor e o irlandês Colin Farrel.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A loucura é como a gravidade...

“A loucura é como a gravidade, basta um empurrãozinho!” Com essa frase o Coringa sadomasoquista do Batman – O Cavaleiro das Trevas (Dark Night), resume o filme. Desde a primeira cena até a última é um fileira de empurrãozinhos. Os comparsas do Coringa são foragidos do Asilo Arkhan, manicômio judiciário de Gothan City e não hesitam em torturar, explodir e matar o que for preciso. A origem do sorriso do Coringa tem diferntes versões. Fica ao gosto da vítima/expectador em qual delas acreditar. O que mais intriga é que o personagem de Heath Ledger (morto em 22 de janeiro deste ano) é muito, mais muito melhor do que o de Jack Nicholson do Batman (1989) de Tim Burton. Convence e ameaça ganhar todos os prêmios. O Coringa é o vetor que o diretor Christopher Nolan, que também dirigiu Batman Begins (2005), e seu irmão, o roteirista Jonathan, utilizam para referenciar as instituições decadentes da contemporaneidade: voto obrigatório, democracia relativa, atentados terroristas, sistema bancário alimentado por máfias, politicagem, tecnologia invasiva, polícia promíscua, acúmulo insano de capital, maniqueísmo, manipulação de mass-media, solidão, descrédito na justiça, advogados subservientes, sentimento de culpa, pobreza e a sempiterna lei de talião. Esta última, fartamente utilizada pelo traído e manipulado Promotor de Justiça, Harvey Dent (Aaron Eckhart). Cara ou coroa? Que rode, rode, rode, a moe(n)da! Cena antológica: uma montanha de dinheiro queimando na frente de estupefatos e incrédulos criminosos. Para o Coringa não interessa os fins e sim os meios, desde que de forma anárquica, levando o caos e a destruição através da diversão torpe e debochada onde aparentemente reina o equilíbrio, a seriedade, a sobriedade, a sisudez. Diferente de outros tempos, a batcaverna agora é um galpão imenso, iluminado e dispõe de um solitário computador com 6 monitores. A batmansão é uma cobertura de um arranha-céu, igualmente imensa, iluminada, com poucos móveis e objetos decorativos. Como disse um amigo de um amigo: a escuridão está imbricada no interior das incertezas de Batman. Diante desse Batman, os Batmans de Burton e Schumacher agora dormem literalmente de cabeça pra baixo. Esse Cavaleiro é um puro-sangue à la Frank Miller. Embora o filme tenha uma miríade de estrelas: Christian Bale (Batman/Bruce Wayne), Maggie Gyllenhaal (Rachel Dawes), Gary Oldman (James Gordon), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Michael Caine (Alfred Pennyworth), é preciso atestar que todos são coadjuvantes do finado Heath Ledger. Não nos esqueçamos dos pais da criança que nasceu em 1939, o desenhista Bob Kane e o escritor Bill Finger. Dê um sorriso. Why so serious?

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Amy


Tem umas coisas na vida que a gente só conhece tardiamente, mas que tem um deleite de comer chocolate, flanar sábado à tarde, tomar café com os amigos, comer rubacão, abraçar uma pessoa querida... deitar numa rede. É o que sinto quando ouço Amy Winehouse. Estou completamente apaixonado por ela. Onde estava que não a conhecia? Foi um amigo, o Xico que me apresentou, aliás, me apresentou não, me viciou! Amy é um misto de Billie Holiday sem a voz depressiva. Ella Fitzgerald sem o abuso de querer ser sempre a top the top. Nina Simone sem a cara de quem veio de outra galáxia e de Janes Joplin com todos os seus efeitos e defeitos. E ainda tem um it James-Brown-Tina Turner. Parece um coquetel feito com absinto, vodka, tequila, cachaça & cocaína. Ouví-la é viajar pelo rhythm & blues, jazz e pop do século xx. Curto muito seu visual remissivo sessenta/setenta sem querer causar moda. Estilo em estado puro. Caí literalmente de ouvidos. Não paro de escutar em casa, no carro... no ipod. Sei que a vida dela não tem sido fácil. O gênio dela é forte. E, segundo os antigos, o gênio rege o destino, as artes, as paixões, os vícios, a irritação, a cólera. Enfim, quero tudo d´Amy, viva ou morta, pois terá sido uma escolha dela!


Ouça a diva cantando Valerie ao vivo e em casa: http://br.youtube.com/watch?v=lqSKVv6YO8g.

E dando o recado em Rehab irônica e bem humorada: http://br.youtube.com/watch?v=eV5cUno6GSc&feature=related

"They tried to make me go to
rehab
But I said 'no, no, no'
Yes, I've been black, but when I come back
You'll
know-know-know
I ain't got the time
And if my daddy thinks I'm fine
He's tried to make me go to
rehab
But I won't go-go-go"

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Devotees, Pretenders e Wannabes. Crash!


Em evento recente a fim de discutir políticas públicas, conheci um participante de Campina Grande (PB) que debateu comigo um assunto pouquíssimo discutido: a sexualidade dos portadores de deficiências físicas congênitas ou adquiridas. Ele, que também é deficiente físico, me relatou francamente os tabus e os preconceitos sórdidos que cercam o assunto. Como exemplo, as Campanhas, governamentais ou não, sobre dst/aids, uso de camisinha e sexualidade em geral, que não levam em conta as especificidadee das relações sexuais, eróticas ou afetivas entre deficientes físicos ou entre deficientes físicos e pessoas que não portam deficiência alguma. Quer saber, para essas Campanhas os deficentes nem existem. A maioria das pessoas acham que eles perdem, juntamente com algumas incapacidades, o tesão ou que se tornam assexuadas ou infantilizadas. Isso não é verdade! Segundo Leo Buscaglia, e eu concordo com ele, "as pessoas com deficiência têm a mesma necessidade que você de amar e ser amado, de aprender, partilhar, crescer e experimentar, no mesmo mundo em que você vive. Elas não têm um mundo separado." Recentemente numa sala de bate-papo, tive uma experiência marcante. Vi um nickname que me chamou atenção – deficienteagora. 39 anos em cadeira de rodas por causa da poliomielite (e há quem ainda seja contra as pequisas com células-tronco). Ele me relatou algumas práticas sexuais relacionadas aos deficientes físicos com pessoas não deficientes que até então ignorava completamente. O devotee: pessoa que se sente sexualmente atraída por pessoas com deficiência, o pretender: devotee que se sente sexualmente estimulada quando finge ser deficiente, utilizando, em público ou privadamente, equipamentos como cadeira de rodas, muletas, bengalas, aparelhos ortopédicos, etc e o wannabe: devotee que deseja tornar-se, de fato, deficiente. Daí, me lembrei que em 1996 assisti boquiaberto, Crash - Estranhos Prazeres, do cineasta David Cronenberg, baseado no livro Crash (1973) de J. G. Ballard com James Spader (James Ballard), Holly Hunter (Helen Remington), Helias Koteas (Vaughan), Debora Kara Unger (Catherine Ballard) e Rosanna Arquette (Gabrielle). Cena inesquecível: J. Ballard assiste a reconstituição do acidente que matou o ator James Dean, feita sem segurança alguma. Para os que assistem e participam da cerimônia, as mutilações e as desfigurações apenas aumentam a excitação e o automóvel é utilizado como facilitador da pulsão sexual devotee. Na época fiquei sem compreender muitas cenas e diálogos do filme, preciso revê-lo urgentemente. Responda a pesquisa que até o momento contabiliza 4.083 visitas, alías, 4.084: http://devotee.sites.uol.com.br/

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Speed Racer


Fui rápido, no dia que estreou com direito a pipoca & cc. Speed Racer pra quem tem pouco mais de 40 como eu, significa muito. Adorava vê-lo na TV, mesmo que em p & b e nos gibis comprados por meu pai na banca de revistas Viña del Mar depois de comer na Pizzaria Pietro´s e como sobremesa os deliciosos pirulitos Zorro. Originalmente um anime japonês chamado Go Mifune, da Tatsunoko Production, que baseou a história do filme. Ao contrário da lenda de Caim e Abel, o irmão do filme se pudesse ressuscitaria o irmão morto e de certa forma o faz ao continuar sua careira precocemente interrompida. O filme abusa das cores ácidas, fortes, vibrantes. Movimentos alucinantes, vertiginosos, nauseabundos. Muita geometria mondrianesca e adrenalina pra tomar de canudinho listrado de vermelho e amarelo. E os papéis de parede figurativos, coloridíssimos, preste atenção neles. Os carros são ótimos de ver e ouvir. Resumindo, tudo no filme é superlativo e o que é melhor, verossímil. Parabéns para o Chimpanzé (Zequinha) , Emile Hirsch (Speed Racer), Susan Sarandon (mãe dos Racer), Christina Ricci (Trixie), Matthew Fox (Corredor X), Scott Porter (Rex), John Goodman (Pops) e Cosma Shiva Hagen (Gennie), (sim, aquela garotinha que aparece nos braços da mãe, a vozinha e a risada da 9ª faixa do antológico disco Nunsexmonkrock (1982) de Nina Hagen). Parabéns para os irmãos Andy e Larry Wachowski, que provaram que não vivem só de Matrix,1, 2 e 3. Como é doce e colorido vencer! Sim, ia esquecendo... E o carro da Petrobrás? Alguém viu? Eu não! Ah, se quiser ver e ouvir Nina e Cosma na 9º faixa do disco Nunsex: http://br.youtube.com/watch?v=G9us-TlWAO4&feature=related. Mate a saudade do desenho animado, go: http://www.youtube.com/watch?v=Mn5YAusxkYQ&feature=related ou http://www.youtube.com/watch?v=M6IgYDu3hl4&feature=related

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Cannabis Sativa Linneu. Pooode? Não pooode?

Normalmente sou avesso a jargões, principalmente os televisivos. Mas tem um que gosto. Não sei se pela personagem ou se pela atriz, pelas duas ou como ela expressa o seu pooode -- não pooode, a fim de criticar o consumo na cadeia alimentar. Digo isso para comentar a frustrada Marcha da Maconha no último dia 04 aqui em João Pessoa. Arregimentada por uns e proibida por sentença judicial, que, por ironia, adveio do Juízo da 8ª Vara Criminal ESPECIALIZADA EM DELITOS DE TÓXICO e também em ACIDENTES DE TRÂNSITO. O MM Juiz proibiu a marcha e determinou que fossem tomadas “medidas enérgicas e necessárias para suspender a realização de manifestação pública organizada para fins de liberação do consumo da cannabis sativa linneu, popularmente conhecida como "maconha". (...) E continua: “essa conduta atenta contra a ordem pública, pois afronta a moral e os bons costumes, visto que ultrapassa o terreno do debate de idéias e estimula um comportamento que pode produzir nefastas conseqüências, notadamente quando o instigamento é feito em locais públicos aos quais costumam comparecer muitos jovens ainda imaturos que são levados, muitas vezes, pelo modismo da situação.” (destaques meus). E acrescenta: “Para o devido cumprimento desta liminar, oficie-se a (...) Polícia Civil, (...) Polícia Militar, (...) Polícia Federal, etc. Nas palavras do julgador, a Marcha ultrapassaria o terreno do debate de idéias e estimularia um comportamento que poderia produzir nefastas conseqüências (???). Lendo isso, fiquei sem entender, se a proibição era dirigida para a Marcha ou para coibir que os participantes marchassem fumando cannabis sativa linneu, em razão da tropa de choque policial requerida para combater as idéias e opiniões. Então lembro o jargão da personagem citada: Fumar MACONHA: não pooode. Beber CERVEJA até atropelar e/ou matar pessoas: pooode. Cheirar COCAÍNA: não pooode. Fumar CIGARRO DE TABACO INDUSTRIAL que causa mau hálito, perda de dentes, câncer de boca, de pulmão, infarto do coração, partos prematuros, asma, dependência, impotência sexual: pooode. ECSTASY: não pooode. Tomar CACHAÇA até desagregar famílias e perder o emprego: pooode. Beber VINHO até encontrar uma verdade que não existe (in vino veritas?): pooode. Injetar HEROÍNA: não pooode. Beber ÚISQUE e dá vexames públicos podendo chegar ao coma ou amnésia total: pooode. Propaganda de Bebidas alcoólicas na televisão: ainda pooode. Vender bebida alcoólica a quem dirige nas estradas e a menores: ainda pooode. Marcha da Maconha: não pooode. Oktoberfest, onde o consumo de cerveja chega a 7 milhões de litros sob os auspícios oficiais: pooode. Pooode, Não Pooode.
Nota: você acredita que 32 liminares da Justiça Federal em 8 Estados suspenderam a Medida Provisória n.º 415, de 2008, que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas estradas? Que álcool é a droga, entre as lícitas e ilícitas, que mais avança entre jovens. Hoje, a moçada bebe bastante, cada vez mais precocemente, e as meninas consomem a mesma quantidade que os meninos. "Pesquisas só comprovam o que todo mundo vê nas ruas: a transformação de um novo cenário urbano, com hordas de jovens bebendo em bares, praças, em frente às escolas", observa o psiquiatra e psicanalista Sérgio de Paula Ramos, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). (in Jornal O Estado de são Paulo (04/02/06). Acesse o site movimento PROPAGANDA SEM BEBIDA: http://www.propagandasembebida.org.br/quem_somos/
Finalizo citando o mano Caetano: "Ter um rancho de éter no Texas, uma plantation de maconha no Wyoming, nada de axé, Dodô e Curuzu"

terça-feira, 6 de maio de 2008

Coragem: substantivo feminino

* Coragem: substantivo feminino. 1. Moral forte perante o perigo, os riscos; bravura, intrepidez, denodo. 2. Firmeza de espírito para enfrentar situação emocionalmente ou moralmente difícil. Ombridade. (in Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa). Interessante notar que um substantivo feminino é freqüentemente aclamado para reforçar estereótipos masculinos. Recentemente fui convocado para participar da 1ª Conferência GLBT de João Pessoa (PB) que teve como temática: DIREITOS HUMANOS E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CAMINHO PPARA GARANTIR A CIDADANIA DE GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (GLBT). Uma Conferência dessa natureza, a exemplo de outras que a antecederam (Conferência de Mulheres, Jovens e das Cidades), existe para discutir políticas públicas e não políticas privadas, embora muitas vezes o limite entre uma e outra seja muito tênue. A Conferência GLBT foi um tremendo sucesso. Quase 300 pessoas participaram entre os dias 26 e 27 de abril na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Fórum aberto, democrático, de livre acesso e expressão, mas que vai apontar no seu relatório final diretrizes governamentais a serem seguidas. Lá, se discutiu a cidade, a comunicação, a cultura, os direitos humanos, a educação, o emprego, a justiça, a mídia, o poder judiciário, a previdência social, a saúde, a segurança pública, o trabalho e o turismo, divididos por 6 Grupos de Trabalho. Sabe-se que existe GLBT em todos os segmentos públicos e privados da sociedade. Dentro dos armários ou fora deles. As Políticas Públicas precisam ser garantidas sempre, porque existem seres humanos que precisam delas URGENTEMENTE! Nunca saberemos se vamos sofrer com uma enfermidade terminal ou difícil e cara de ser tratada, se vamos ficar desempregados, sem teto, sem terra, sem comida, se seremos ridicularizados publicamente, se vamos ter direitos patrimoniais, previdenciários, estar lúcidos e acompanhados na velhice, se sofreremos violências dentro ou fora de casa, depreciados pela cor da pele, fé, religião, gênero ou portadores de deficiências congênitas ou adquiridas. Temos que apoiar as Políticas Públicas incondicionalmente! Portanto, meu caro, minha cara, é elementar... Tenhamos CORAGEM, esse substantivo tão FEMININO!
* A gravura é de Maria Quitéria de Jesus (Feira de Santana, 27.07.1792 - Salvador, 21.08.1853), militar brasileira, heroína da Guerra da Independência. Patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Saiba mais sobre ela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Quit%C3%A9ria

terça-feira, 1 de abril de 2008

Chico Science de Pernambuco, Elizabeth 1ª da Inglaterra e Felipe 2º da Espanha

O medo dá origem ao mal. O homem coletivo sente a necessidade de lutar. O orgulho, a arrogância, a glória, enche a imaginação de domínio. São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade... Assim Chico Science canta (sim, no presente, porque pra mim ele nunca morreu) na música Monólogo ao pé do ouvido. Assisti ontem Elizabeth – A era do ouro (2207) de Shekhar Kapur, com Cate Blanchet (Elizabeth I), Jordi Mollá (Felipe da Espanha), Clive Owen (Sir Walter Raleigh) e Abbie Cornish (Elizabeth (Bess) Throckmorton). Rainha da Inglaterra e da Irlanda (1533-1603), foi a última das governantes da dinastia Tudor. Filha do temeroso Henrique VIII e sua 2ª esposa, Ana Bolena, que foi decapitada quando Elizabeth (nascida Isabel) tinha 3 anos. Era versada em línguas, estudou música, dançava muito bem, lia muito e acreditava na ciência, que, naquele tempo ainda era “oculta”. Subiu ao trono em 1558 e implantou definitivamente o protestantismo e a Igreja Anglicana na Inglaterra. Era chamada de Rainha Virgem, porque jamais se casou e dizia que os ingleses eram seus filhos. Mas você deve está se perguntando o que Chico de Pernambuco tem a ver com tudo isso? Vejo na história de Elizabeth o que ele quis expressar na música. O orgulho, a arrogância, a glória, enche a imaginação de domínio. Elizabeth enfrentou a inquisição personificada em Felipe II da Espanha, que tentou enfrentar a Inglaterra numa invasão pra lá de frustrada em nome da moral Católica. O orgulho, a arrogância derribou Felipe. Ok, Francis Drake, os ventos, o fogo e a costa inglesa contribuíram, mas foi a glória que deu a vitória aos Ingleses sobre a “Invencível Armada” em 1588. Elizabeth desenvolveu o comércio e a indústria e incentivou o renascimento das artes e a liberação dos costumes (amém!). São do chamado período elizabetano as obras de Shakespeare, Spenser e Marlowe. Cena que gosto: A crise histérica que Elizabeth é acometida em função da dupla traição. O Senhor Raleigh, seu protegido, engravida e se casa, sem sua autorização, com Bess Throckmorton, sua Dama de Séquito preferida. Owen faz um ótimo sedutor à la Errol Flynn, sem capa e muito espada. Viva Elizabeth I!. Ela escapou ilesa de um atentado a bala, semelhante aos do Presidente dos EUA, Ronald Reagan (1981) e do Papa João Paulo 2º (1981). Dizem que ela tolerava a pirataria - será verdade ou 1º de abril? Preste atenção no figurino de Alexandra Byrne. Primoroso. Ouça a música de Science: http://br.youtube.com/watch?v=7Pks1bFTX6U. Sobre a Rainha Virgem: http://www.elizabethi.org/. Não esqueça: São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade!