
“A loucura é como a gravidade, basta um empurrãozinho!” Com essa frase o Coringa sadomasoquista do Batman – O Cavaleiro das Trevas (Dark Night), resume o filme. Desde a primeira cena até a última é um fileira de empurrãozinhos. Os comparsas do Coringa são foragidos do Asilo Arkhan, manicômio judiciário de Gothan City e não hesitam em torturar, explodir e matar o que for preciso. A origem do sorriso do Coringa tem diferntes versões. Fica ao gosto da vítima/expectador em qual delas acreditar. O que mais intriga é que o personagem de Heath Ledger (morto em 22 de janeiro deste ano) é muito, mais muito melhor do que o de Jack Nicholson do Batman (1989) de Tim Burton. Convence e ameaça ganhar todos os prêmios. O Coringa é o vetor que o diretor Christopher Nolan, que também dirigiu Batman Begins (2005), e seu irmão, o roteirista Jonathan, utilizam para referenciar as instituições decadentes da contemporaneidade: voto obrigatório, democracia relativa, atentados terroristas, sistema bancário alimentado por máfias, politicagem, tecnologia invasiva, polícia promíscua, acúmulo insano de capital, maniqueísmo, manipulação de mass-media, solidão, descrédito na justiça, advogados subservientes, sentimento de culpa, pobreza e a sempiterna lei de talião. Esta última, fartamente utilizada pelo traído e manipulado Promotor de Justiça, Harvey Dent (Aaron Eckhart). Cara ou coroa? Que rode, rode, rode, a moe(n)da! Cena antológica: uma montanha de dinheiro queimando na frente de estupefatos e incrédulos criminosos. Para o Coringa não interessa os fins e sim os meios, desde que de forma anárquica, levando o caos e a destruição através da diversão torpe e debochada onde aparentemente reina o equilíbrio, a seriedade, a sobriedade, a sisudez. Diferente de outros tempos, a batcaverna agora é um galpão imenso, iluminado e dispõe de um solitário computador com 6 monitores. A batmansão é uma cobertura de um arranha-céu, igualmente imensa, iluminada, com poucos móveis e objetos decorativos. Como disse um amigo de um amigo: a escuridão está imbricada no interior das incertezas de Batman. Diante desse Batman, os Batmans de Burton e Schumacher agora dormem literalmente de cabeça pra baixo. Esse Cavaleiro é um puro-sangue à la Frank Miller. Embora o filme tenha uma miríade de estrelas: Christian Bale (Batman/Bruce Wayne), Maggie Gyllenhaal (Rachel Dawes), Gary Oldman (James Gordon), Morgan Freeman (Lucius Fox) e Michael Caine (Alfred Pennyworth), é preciso atestar que todos são coadjuvantes do finado Heath Ledger. Não nos esqueçamos dos pais da criança que nasceu em 1939, o desenhista Bob Kane e o escritor Bill Finger. Dê um sorriso. Why so serious?